Alfabetização depois dos 60: cérebro ainda pode aprender

Neuroplasticidade, experiência de vida e métodos adequados ajudam idosos a superar barreiras e conquistar autonomia

Chegar aos 60, 70 ou 80 anos sem saber ler e escrever não significa ter perdido a oportunidade de aprender. No Maranhão, essa frase ainda precisa alcançar uma parcela importante da população: segundo o IBGE, 15% dos maranhenses com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever um bilhete simples. O índice caiu em relação aos 20,9% registrados em 2010, mas a desigualdade continua grande quando se observa quem envelheceu com menos acesso à educação: entre os maranhenses com 65 anos ou mais, 45,6% não eram alfabetizados na última edição do Censo.

Nas duas maiores cidades do estado, a situação era melhor, mas ainda assim, os números chamam a atenção. Em São Luís, 14,11% das pessoas idosas não sabiam ler nem escrever, enquanto em Imperatriz a proporção chegava a 30,35%, ainda segundo os dados do IBGE. Levantamentos mais recentes mostram dados similares: a PNAD Contínua Educação 2024 revela que, em toda a região Nordeste, 30,7% das pessoas com 60 anos ou mais não sabiam ler e escrever. No grupo entre 15 e 60 anos, essa parcela é de 11,1%.

Nesta semana foi comemorado o Dia Internacional da Alfabetização, no dia 08 de setembro, data que incentiva e reforça que não há barreiras e não importa a idade para a aquisição de novos conhecimentos. Segundo Ariana Conceição Lima de Carvalho, professora do curso de Pedagogia do UniFacimp Wyden, especialista em Psicologia da Educação e em Neuropsicopedagogia e Educação Especial, o processo de aprendizagem se modifica ao longo da vida e pode exigir estratégias diferentes. “O aprendizado não fica necessariamente ‘mais difícil’, mas passa a exigir novas abordagens. É preciso priorizar uma compreensão contextualizada, mais do que uma memorização acelerada”, explica.

O cérebro continua aprendendo

Um dos conceitos que ajudam a explicar essa capacidade é a neuroplasticidade. “A neurociência tem derrubado um antigo mito de que o cérebro em processo de envelhecimento é estático”, afirma Ariana. Segundo a professora, mesmo o cérebro maduro continua reorganizando suas conexões neurais e criando caminhos de comunicação em resposta a estímulos e experiências. A estimulação cognitiva também pode contribuir para a memória e para as relações com o ambiente.

E quem chega à aprendizagem depois de décadas de vida traz uma ferramenta importante na bagagem: a própria experiência. Conhecimentos profissionais, relações familiares, situações vividas e referências acumuladas podem facilitar a conexão entre aquilo que a pessoa já conhece e um conteúdo novo. “Na andragogia, que é o campo que orienta a aprendizagem de adultos, a experiência acumulada é o alicerce sobre o qual o novo conhecimento é construído”, explica Ariana. Segundo ela, essas vivências permitem criar associações significativas com novos conceitos e podem favorecer uma compreensão mais profunda.

Naturalmente, proporcionar esse aprendizado exige técnicas de ensino adequadas. A professora defende a realização de atividades relacionadas a situações concretas e à resolução de problemas reais, em vez de conteúdos abstratos sem aplicação evidente. “O aluno precisa compreender a utilidade do que estuda, e isso é especialmente relevante no caso do adulto”, destaca. Recursos visuais, auditivos e práticos, troca de experiências entre os estudantes, exemplos relacionados ao cotidiano e técnicas de memorização devem fazer parte dessa metodologia.

A barreira da idade

Além das dificuldades educacionais acumuladas ao longo da vida, retornar à aprendizagem depois dos 60 pode envolver obstáculos que não aparecem nas estatísticas. Vergonha, medo de errar e a sensação de que já se passou o tempo podem afetar a experiência de quem chega à sala de aula nessa faixa etária. “Quando o idoso internaliza o preconceito de que velhice é sinônimo de esquecimento, pode sofrer uma sobrecarga de ansiedade durante as tarefas de aprendizagem. Essa ansiedade prejudica a memória de trabalho e reduz a autoconfiança”, explica.

Os números ajudam a mostrar por que enfrentar essa barreira ainda importa no Maranhão. Entre as pessoas com 80 anos ou mais, 55,68% dos maranhenses não sabiam ler e escrever, segundo o IBGE. O indicador não determina a capacidade dessas pessoas de aprender agora, mas é um retrato do acesso à educação ao longo das suas vidas.Por isso, a professora defende ambientes acolhedores, que respeitem as diferenças e o ritmo de cada aluno, sem pressão por um aprendizado perfeito ou rápido.

Programa oferece alfabetização gratuita em Imperatriz

Em Imperatriz, jovens, adultos e idosos que não tiveram acesso à alfabetização podem participar gratuitamente do Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos, desenvolvido pelo Instituto Yduqs e realizado no UniFacimp Wyden. A iniciativa trabalha a leitura, escrita e compreensão de informações relacionadas ao cotidiano e adota uma metodologia que considera os conhecimentos, as vivências e o ritmo dos participantes.

Na edição de 2026, a turma de Imperatriz reúne 17 alunos, com idades entre 30 e 60 anos. Os participantes desenvolvem habilidades de leitura, escrita, compreensão e interpretação de textos por meio de atividades que incluem projetos, resolução de problemas e situações práticas. Nacionalmente, o programa já contabiliza mais de 2,5 mil alunos formados e envolve mais de 110 educadores e monitores.


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