Um colega da faculdade com quem você não conversa há anos, a pessoa que conheceu durante um congresso ou aquele profissional que acompanha pelas redes sociais podem parecer contatos distantes demais para fazer diferença na carreira. Mas são justamente essas relações fora do círculo mais próximo que podem ampliar o acesso a informações e oportunidades profissionais que dificilmente chegariam por meio de amigos e colegas com quem convivemos todos os dias.
É o que ajuda a explicar o conceito dos chamados “laços fracos”, estudado há décadas na análise das redes sociais. Uma pesquisa publicada na revista científica Science, realizada a partir de experimentos envolvendo milhões de usuários do LinkedIn, encontrou evidências de que conexões profissionais moderadamente fracas podem favorecer a mobilidade profissional. Para Alex Lamarques, professor e coordenador do Núcleo de Negócios do UniFacimp Wyden, o resultado prova que “fazer networking” vai muito além de acumular contatos.
“Aquela pessoa que você conheceu em uma palestra, em um evento ou durante a faculdade pode, lá na frente, conectar você a uma oportunidade que talvez nunca chegasse pelo seu círculo mais próximo”, explica.
Na prática, networking significa construir relações profissionais. Isso envolve trocar experiências e conhecimentos, manter conexões e também estar disponível para contribuir com outras pessoas. “Muitas vezes as pessoas acham que basta conhecer muita gente, ter vários contatos no celular ou adicionar pessoas no LinkedIn, mas não é isso. É criar conexões profissionais que façam sentido”, afirma Lamarques.
Comece perto
Para quem ainda está na faculdade ou dando os primeiros passos no mercado, construir uma rede profissional não exige participar de grandes eventos ou abordar desconhecidos deliberadamente. A própria universidade pode ser o ponto de partida.
Colegas de turma, professores e coordenadores, além de profissionais conhecidos em palestras, visitas técnicas, projetos de extensão, estágios, congressos e cursos, já formam uma rede em potencial. “Às vezes o estudante pensa que precisa esperar entrar no mercado, quando ele já está cercado de futuros profissionais que podem oferecer a primeira oportunidade”, observa Alex.
A aproximação também não precisa começar com um pedido. Depois de uma palestra, por exemplo, fazer uma pergunta ao convidado, conversar sobre o conteúdo e posteriormente manter algum nível de contato pode ser mais efetivo do que abordar alguém já pensando em uma oportunidade profissional. “Networking começa muito mais pela curiosidade e pela troca do que pelo interesse em conseguir alguma coisa”, afirma.
É por isso que procurar um antigo contato depois de meses ou anos exclusivamente para perguntar sobre uma vaga está entre os comportamentos que podem tornar a relação artificial. Para Alex, uma boa rede precisa começar a ser construída antes de surgir a necessidade de pedir ajuda.
Isso não significa enviar mensagens constantemente. Parabenizar alguém por uma conquista, compartilhar um artigo ou evento relacionado à área de atuação daquela pessoa, trocar informações ou conversar quando os dois se encontram são maneiras simples de preservar o vínculo.
“Reciprocidade não significa ficar calculando quem fez alguma coisa por quem. É entender que networking não pode ser uma relação de mão única. Antes de pensar no que aquela pessoa pode fazer por mim, também preciso pensar no que eu posso agregar àquela relação”, explica.
E quem é tímido?
Construir uma rede profissional também não é exclusividade dos extrovertidos. “Networking não é uma competição para ver quem fala mais. Uma pessoa tímida pode construir uma excelente rede de contatos”, afirma Lamarques.
As plataformas digitais criaram ainda outra possibilidade de aproximação. Em junho de 2026, o LinkedIn alcançou 100 milhões de membros no Brasil, colocando o país entre os três maiores mercados da rede profissional no mundo. Globalmente, são mais de 1,3 bilhão de profissionais cadastrados em mais de 200 países e territórios.
A dimensão da plataforma, entretanto, não significa que acumular conexões seja suficiente. Para quem tem dificuldade de abordar alguém pessoalmente, Alex sugere começar acompanhando profissionais da área, interagindo com conteúdos e participando de conversas. Aos poucos, essas interações podem criar oportunidades para uma aproximação mais direta.
“Não adianta ter milhares de conexões se ninguém sabe quem você é ou reconhece o seu trabalho. Para quem é tímido, minha sugestão seria simples: você não precisa entrar em uma sala e conversar com 30 pessoas. Comece conversando com uma”, orienta.
O que não fazer
Se networking depende da construção de relações, algumas atitudes podem produzir justamente o efeito contrário. Procurar alguém somente quando precisa de um favor, iniciar uma conversa já pedindo emprego ou indicação, insistir quando não há resposta, forçar intimidade e disparar mensagens genéricas são comportamentos que Alex recomenda evitar.
Também é preciso considerar a imagem construída no ambiente digital. “Nossa presença digital também comunica quem somos profissionalmente”, lembra o professor. Isso não significa transformar todas as redes sociais em currículos, mas compreender que publicações e interações também podem influenciar a maneira como alguém é percebido profissionalmente.
Nenhuma rede de contatos, porém, substitui a preparação profissional. Conhecer alguém pode ajudar uma oportunidade a circular, mas é o conhecimento e a capacidade de executar o trabalho que entram em cena quando ela aparece. “Competência faz você estar preparado para a oportunidade; networking pode fazer a oportunidade chegar até você”, resume Lamarques.
Imagem: RDNE Stock Project/Pexels








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